Você quer que eu siga em frente mas eu vou é girar no lugar! O progresso e harmonias contra-hegemônicas em “Hey Joe – Jimi Hendrix”

Você quer que eu siga em frente mas eu vou é girar no lugar! O progresso e harmonias contra-hegemônicas em “Hey Joe – Jimi Hendrix” 

“Hey Joe, where you goin' with that gun in your hand? Ei Joe, pra onde você vai com essa arma na mão?
Hey Joe, I said, where you goin' with that gun in your hand? Ei Joe, eu disse, pra onde você vai com essa arma na mão?”

(“Hey Joe”, canção estadunidense tradicional, interpretada por Jimi Hendrix, 1966.)

Antes de qualquer coisa, a música:


Áudio original, com coros: https://www.youtube.com/watch?v=rXwMrBb2x1Q

Parte 1 – Hegemonia: a quinta em seu trono

O pilar da harmonia. Cavado sobre a natureza, especulado através de uma corda que vibra e que diz sobre todas as outras, a relação de 5ª fundamenta o pensamento, a feitura e a valoração do que chamamos de música (já com o adjetivo de “ocidental” no seio). A 5ª é uma frequência, um harmônico que ressoa quando qualquer coisa vibra.
Bateu na porta. Muitos sons, um complexo de frequências e timbres que, no nosso ouvido, resultam em “um” som, o conjunto que forma o que se bateu na porta. Se uma corda vibra, vários harmônicos ressoam. Em ordem: a nota “originária”, a sua oitava (nota de mesmo nome porém mais aguda – ex., dó mais grave e um dó mais agudo), a QUINTA, volta a oitava (mais aguda ainda), a terça maior etc. Essas ressonâncias são a famosa Série Harmônica, núcleo argumentativo dos que querem naturalizar relações musicais. Isso é bonito pois é natural, o natural é a série harmônica, a harmonia segue as regras da série harmônica, o que não segue não é natural, logo não é humano, logo não é música. Passar superficialmente sobre esta questão (certamente um perigo) pode ser às vezes necessário para chegarmos em outros pontos que aparecem como ressonâncias (péssimo substantivo aqui) deste problema.

Justifica-se, a partir desta argumentação, o Acorde Maior, formado pela nota Fundamental (Root – raiz), sua Terça Maior e sua Quinta Justa (quantas vezes palavras de forte potência naturalizante não aparecem nesse percurso? Raíz, Justo, Perfeito, Natural... ). Justifica-se a relação deste acorde, O acorde, A formação harmônica perfeita e natural, com... de repente, OUTRO acorde: se tínhamos o Dó Maior, temos agora o Sol Maior, sua quinta, famoso Acorde Dominante. Este já aparece quase por indução, quase como se estivesse ali – porém, não, não está “contido” na série harmônica. O primeiro passo de derivação a partir de um fundamento. Teríamos o núcleo formador, a série harmônica, o “acorde maior” que aparece ali, e disso saem motivos e motivos e materiais e materiais que coincidentemente se conciliam perfeitamente com a música da alta cultura europeia. Um tanto impactante. A história contada pelos vencedores, a teoria formulada a partir de seu fim. Goethe não encontrou a Terça Menor na série harmônica.

Entre estes dois acordes, agora com ordem temporal (Sol Maior prepara Dó Maior, Dó Maior resolve o Sol Maior, Dó é o centro de tudo, Sol é a diferença que leva ao centro), surge a relação de quinta. A relação que sustenta todas as outras relações entre todos os outros acordes. Se há um acorde, há sua quinta, se há sua quinta, há outro acorde, e outro e outro e outro e outro. Daí a marcha de acordes que se produz e se afirma como Progressão Harmônica. A marcha que caminha em frente, sempre com UM centro, a Tonalidade, que aparece em todas as igualdades e diferenças entre os acordes, que junta tudo em UM só, são conceitos que se relacionam mutuamente na ideia de música formulada nestes princípios. Conceitos que devem ser explorados com exaustão para quem se interessar no aprofundamento destas questões. A Tonalidade, a Progressão Harmônica, Acordes, Notas... Um poderosíssimo Sistema Tonal que justifica e se justifica ao longo da história, na trama do escrito da teoria musical em conjunto das peças e monumentos musicais. Não sem muitas tensões envolvidas. Tanto na feitura musical quanto nas formulações teóricas aparecerão inclinações de tensão contra o já naturalizado, contra a dita Norma. A Norma se constrói através de seu próprio tribunal, constantemente policiada, constantemente tensionada. Por vezes a tensão enaltece a norma, por vezes a tensão é destruidora.

Lembrando que as relações puramente musicais apenas existem em relação ao mundo de onde saem, levanto aqui a ideia de que estas mesmas relações revelam sobre os problemas sociais do mundo (buscar mais em Adorno), portanto a análise musical se coloca ao mesmo tempo como análise dos problemas sociais. Uma tensão da norma musical não é apenas uma tensão da norma musical. Ela virá junto de outra ética de vida, de outra visão de mundo, de outras roupas, outras atitudes, outra instrumentação, outra música.

Parte 2 – O carrossel harmônico de Jimi

Jimi Hendrix não se vê na possibilidade de fazer música do “jeito que se faz música”. Negro, nascido em Seattle, no seio da violência de guerra ao exterior e da violência racial, perde sua mãe com 16 anos de idade e poucos anos depois faz parte do exército estadunidense. Para se falar algo novo, é necessário outra maneira de enunciar. “Hey Joe” conta a machista e infelizmente comum história de um homem que quer matar sua mulher (e o faz) pois a viu “paquerando” outro alguém. Joe, imerso nos problemas do cotidiano, no ciúme, nas normativas machistas e no inevitável mundo material, parece ter sido repentinamente abordado por outro alguém que questiona seus atos, alguém que parece estar mais esclarecido, quem sabe pacifista, quem sabe um zé ninguém, pergunta e pergunta a Joe sobre a arma, sobre o feminicídio.

Em tom quase de quem vive outro mundo, no mesmo mundo, pergunta a Joe para onde este vai fugir, mais no tom de questionamento do que de preocupação. Com um constante e interminável coro, que não dá vontade de parar de ouvir, a guitarra soa com todas suas cordas, sua distorção e suas frases pentatônicas. No plano frontal, na estrutura própria que dá margem ao resto, ouvimos uma Harmonia que pega o pilar da Relação de Quinta e o vira de cabeça para baixo, literalmente. Onde haveria um Sol Maior e depois um Dó Maior, temos a inversão: o Dó aparece antes do Sol. E não só isso: o que seria uma progressão, com uma tonalidade clara, com uma figura única central e outras que a valorizam pela diferença, vemos um ciclo que vem e volta, vem e volta, que gira sobre si mesmo, em relações de Quinta invertidas, falando um claro foda-se às diferenças entre os acordes – ali não há acordes maiores e menores, apenas maiores. Lembrando que o foda-se não existe sem o objeto do foda-se, ou seja, não há foda-se a tudo. O foda-se reconhece seus adversários.

Ali não se fala da violência sem uma proposta de igualdade na mesma trama, uma redenção possível para os que se veem como iguais. Esta me parece ser uma das propostas que ouvimos nesta construção musical, onde a Progressão Harmônica se vê negada, e o autor diz em alto em bom tom aos seus compatriotas: vocês querem me falar sobre progresso e me vêm com toda esta violência? Pois eu vou é sair voando e girar no lugar até não poder mais.






*Texto transpirado através das aulas de análise musical com Sérgio Paulo Ribeiro de Freitas (UDESC), a quem agradeço imensamente pela repartição do pensamento e visão de mundo e música. 

Comentários

  1. Não há revolução sem forma revolucionária.
    Que é uma progressão? ... Que é uma revolução?
    Que é forma à maneira de um movimento revoluto?

    Negar a negação e afirmar outro campo de possíveis.... hm.
    Nesse campo, há de se frutificar o quê? Platar como pra colher comendo o que?
    Decretar nova forma não garante a sustentação do amanhã.
    Do que nos alimentamos hoje de sustância e que dá pra frutificar nesse campo?

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