Crítica sobre a Beleza como critério único de valor na música


“É assim amai-vos uns aos outros né? Pois é, já amei uns agora vou amar outros” (Tia Nalva, 2017, Cachoeira – BA, post de facebook)

A lógica do critério único não é de hoje, o julgamento estético se rodeia pela tentativa monista de se valorar algo a partir de um só parâmetro desde antes de Cristo (e com sua ajuda, quem sabe). Porém é claro o que acontece quando se vê algo a partir de um ponto apenas: perde-se todo o resto. Se nós comêssemos somente pelo prazer, bastaria a quantia certa de sal, açúcar e gordura em qualquer comida que satisfaríamos nossos desejos mais viscerais. Mas eu não subestimo a qualidade do paladar das pessoas, inclusive penso que por vezes a falta de reflexão sobre aspectos pontuais na arte leva a incongruências entre sentimentos e “o que vou falar para as outras pessoas” (ponto intrigante que me traz à memória a satisfação que senti quando vi Baby do Brasil convocar o próprio diabo no corpo e na voz quando cantava e dançava em um festival logo após dizer as Graças ao Senhor).  Não que a coerência seja algo tão imperdível assim... de fato lugares de incoerência são sempre muito interessantes. Enfim.

Pois na comida há pimenta, açafrão; há a textura do arroz, o amarelo forte da mandioquinha, isso sem contar os cheiros distintos e processos históricos que se misturam num complexo político-olfato-gustativo difícil de mensurar através de uma só palavra.

A beleza, portanto, tende a se confundir – por exemplo - com um uso das dissonâncias musicais como mero adorno. Texturas sonoras intervalares que antes serviriam ao movimento, à comoção pela diferença, hoje muitas vezes se passam por simples floreios constantes sobre um núcleo composicional fraco. Borrifar perfume sobre uma calça moletom velha não lhe tira o mofo. Desse modo, muitas músicas são trabalhadas a partir de pequenos motivos musicais (trechos narrativos, por assim dizer) que - para criar a satisfação de superfície dos ouvintes (e inclusive das pessoas musicistas) – avançam no tempo musical através de ferramentas fáceis como modulações repentinas, mudança rápida de dinâmica e ritmo e perdem a possibilidade de se desenvolver através de sua própria germinação como núcleo potente. Em outras palavras, são os efeitos especiais na música, as grandes explosões, as paisagens exorbitantes e os mais diversos elementos da ‘causação de impacto e espanto’, em contraste com a união de um roteiro bem elaborado, atores a atrizes trabalhadíssimos, e movimentos de câmera pensados mais do que imagens incríveis filmadas por drones, que compõem um filme.

Sem me ater a exemplos – por ora – deixo esta pequena coluna como um ponto provocativo para sentir, ouvir, pensar e ver a música (e/ou a vida e o mundo...) a partir de mais do que um só critério de valor, inclusive questionando os próprios critérios de valor (o que você está considerando que seja “Beleza”, por exemplo?)

E como nos sugere Nina Simone: um dos papéis dos artistas (para ela, o primordial) é a reflexão destes sobre o mundo, e suas artes como parte do resultado desta reflexão, fica o questionamento deste lugar esterilizado da crítica que habita parte do meio artístico: dando-se como óbvio o critério de valor, perde-se o mundo ao redor.


Tom Cykman
Maio de 2017


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